• Grata

    Não sei porque não gosto de fazer anos, mas é uma coisa quase visceral. É acordar de manhã e pensar “oh não…” e querer e ficar mais um bocadinho na calmia dos lençóis. Tento sempre decifrar este tipo de sentimentos, perceber porquê que ao contrário das pessoas normais eu não consigo estar feliz neste dia que me celebra. Ainda não consegui, pelo menos de forma completa – mas acho que estou a chegar lá. E é o mesmo problema de sempre: as pessoas.

    Este dia é um reminder de todas as pessoas que ganhei, que conquistei, que gostam de mim e que me amam; mas também é uma lembrança de todos os que perdi. Todo ele é uma gestão de expectativas. É estúpido, até porque as coisas nem sempre são lineares e eu já me esqueci de dar os parabéns a pessoas importantes para mim – mas é o que é.

    É perceber quem se limita a escrever “parabéns” no teu mural do facebook; quem, ainda que não se lembrando, vê no facebook e pega no telemóvel para te mandar uma mensagem; é ver quem te liga e ainda manda uma mensagem como bónus; é ver quem te liga do nada, de forma inesperada e sem qualquer compromisso; é ver quem te escreve coisas bonitas, quem te diz que tem saudades mesmo não falando durante os outros 364 dias do ano  – e tu fingires que acreditas – e é ver quem não faz nada disso. E é perceberes que antes aquela pessoa te ligava e agora só te manda uma mensagem quase monossílabica; e é entenderes e veres na profundezas do teu ser que querias que aquela outra te dissesse mais que “parabéns”.

    A verdade é que as palavras valem pouco e os gestos falam por si e mais alto que qualquer outra coisa. O aniversário e só um dia – graças a deus! – mas serve de amostra daquilo que temos. Acho que mentimos quando dizemos que não nos importamos quando alguém de quem gostamos se esquece de uma data que, quer queiramos quer não, é especial; tão e simplesmente porque isso quer dizer que não pairamos na cabeça daquela pessoa, que não estamos no seu “espectro”. E isso é triste, porque todas as relações – quer sejam de amizade, companheirismo ou amor – que não são correspondidas são simplesmente tristes.

    Acredito muito em mim em determinadas coisas e relativamente a certas competências – mas nunca me apercebo do apreço que potencialmente os outros podem ter por mim. Acho sempre que sou o elemento descartável, o que não faz falta, o de substituição. E pode ser paranóia, e em alguns casos sei que sim, mas é algo que não consigo evitar; acho que há feridas que vão ser para sempre mal curadas, há coisas que doem demasiado, há perdas demasiado pesadas para serem esquecidas. E eu tenho, desde cedo, um saco cheio.

    Por outro lado, hoje tive surpresas boas – principalmente vindas do mundo do trabalho. Sempre disse que não queria inimigos e sinto que estou a colher os frutos de uma entrada pacífica no mundo do trabalho. Recebi chamadas e mimos que nunca, nem nos meus sonhos, pensei receber. E fiquei mesmo, mesmo sensibilizada – ao ponto de me apetecer chorar um bocadinho de cada vez que clicava no “vermelho” do desligar. Os meus sobrinhos também me fizeram duas surpresas maravilhosas, com um recital de um poema e uma canção para mim, e eu não tenho como ficar derretida perante tantos gestos de carinho.

    Obrigada a todos, do fundo do coração, pelos desejos de um bom aniversário. Foi mais um, já acabou e eu estou feliz por ter chegado ao fim. Agora tenho 364 dias de sossego =)

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  • 22 velas

    Hoje faço anos. Sempre que me perguntam qual é a minha data de aniversário digo “20 de Março” e, normalmente, acrescento: “ou acabo com o Inverno ou começo com a Primavera”. É algo que acho giro. Não gosto de fazer anos, mas gosto do dia que escolhi (ou escolheram) para eu nascer: tanto pelo número como por esta particularidade que, por acaso, acho que tem muito que ver comigo.

    Infelizmente, acho que sou um bocadinho desiquilibrada no que diz respeito ao estados de humor: ou estou muito bem ou estou muito mal. Não sou de muitos meios termos. Ou sou Inverno ou sou Primavera. Porque muito embora a estação “rival” do Inverno seja o Verão, a verdade é que a mudança mais drástica se dá na altura da Primavera: passamos de dias frios para um calorzinho bom; de árvores despitas para os troncos em flor; de céu cinzento para céu azul; de camisolas de gola alta para t-shirts de manga curta; de galochas para sandálias. E isso representa-me. Eu tenho verdadeiramente dias – e fases – de Primavera e outras de Inverno. E a verdade é que eu fujo da estação fria – tanto no sentido literal como figurado – como um gato foge de água, mas a verdade é que a vida se faz com todas as estações do ano.

    Hoje, para além de fazer anos, começa a Primavera. Em 1995, há precisamente 22, era o último dia de Inverno. Contam-me os meus pais que estava um calor dos ananáses, vindo sabe-se lá de onde. Que passaram dos agasalhos para as mangas curtas, literalmente, do dia para a noite. Só previa aquilo que aí vinha – eu e as minhas mudanças drásticas de “temperatura”.

    Não escondi que nos últimos tempos o Inverno morou para estes lados. Tenho tentado gerir da melhor forma e passar para o outro lado da barricada – o florido, de céu limpo e todas essas coisa boas – e acho que, pouco a pouco, a coisa está a ir ao sítio. De uma forma geral tive uns 21 muito bons; revolucionaram-me a minha vida, foi um ano de mudança e de coisas muito, muito boas. De férias e momentos espetaculares, que guardo como referência daquilo que quero para os meus dias: leveza, saúde e simplicidade. Acho que o resto vem.

    Hoje começa a Primavera. E eu, se pudesse pedir um desejo relativamente a estes 22 acabadinhos de chegar, era isso mesmo: que fosse Primavera durante grande parte dos meus dias.

     

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    (desculpem, tinha de ser. são 22… mas com a panca do costume)

     

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  • Um cartão de visita diferente: sim ou não?

    Tenho a sorte de trabalhar num sítio super livre e aberto a novas ideias. Aliás, tem muito mais vantagens, estas são apenas duas delas, de um rol muito grande de coisas boas que podia apontar. A minha sorte aqui é indiscutível mas, como sempre, não há nada perfeito neste mundo e, para todos os efeitos, eu trabalho num jornal e aquilo que mais me custa fazer é o papel de jornalista (embora faça muito mais que isso). Eu sempre tive uma veia anti-social acentuada, acho que vou sempre ter, e falar com pessoas é algo que me sai das entranhas, custa-me mesmo muito; e já aprendi que embora tenda a melhorar, isto vai muito por fases e do meu estado de espírito e humor. Nos últimos tempos, em que fui abaixo, senti-me a regredir imenso: voltou a custar-me muito ligar para as pessoas, fazer perguntas, “chatear”. Enfim, parvoíces minhas.

    Mas vamos ao que interessa: antes de ir para as feiras, onde já sabia que ia fazer muitos contactos, pedi para fazer cartões que me identificassem, para poder trocar endereços de email, números de telemóvel e essas coisas todas. Na altura aquilo que me passou pela cabeça foi aquela coisa básica com o logótipo do jornal, o meu nome e os meus contactos, mas entretanto vieram-me com uma ideia fora da caixa e eu não consegui dizer que não. Então e o que é? Pôr uma foto minha, em criança, na frente do cartão. Para além de ficar giro – não sei quanto a agora, mas quando era miúda tinha uma cara muito fofa -, é um ice-breaker. E, meus amigos, tudo o que eu preciso neste mundo é de algo para começar a conversas!

    E assim foi – os meus colegas todos fizeram os cartões clássicos e eu, a miúda lá do sítio, fiquei com cartões com a minha cara lá estampada. Sei que sou suspeita, porque até fui eu que escolhi a foto, mas adorei-os mal lhes pus a vista em cima. Achei-os diferentes e cativantes – e numa altura em que nós estamos com as cabeças sempre ocupadas, com mil e um emails por ler, com o telemóvel sempre a apitar e com a capacidade de concentração cada vez mais a assemelhar-se à de um peixe, tudo o que é preciso é algo que cative e que lembre às pessoas de quem somos. Se calhar não se vão lembrar do meu nome, mas vão-se lembrar da rapariga com o cartão fofo. 

    Ou não, não sei. Tive várias reações, enquanto fui distribuindo cartões pelas feiras e mesmo aqui. A família adorou, claro, fez-lhes lembrar o tempo em que eu ainda era uma querida em vez de ser uma chata; relativamente a desconhecidos houve quem simplesmente ignorasse e metesse ao bolso e outros que me perguntaram se era eu, alguns acrescentando que a ideia era muito boa e que a foto era muito querida. É claro que não tenho como saber se é verdade, mas de um modo geral o feedback foi positivo. Curiosamente, da malta mais nova e conhecida, que devia ter uma mente mais aberta, é que às vezes recebi alguns comentários que roçaram a brincadeira mas que não sei até que ponto eram a sério – algumas pessoas disseram, inclusive, ser pouco “profissional”.

    Mais uma vez reafirmo: o jornal onde trabalho é super aberto e a imagem e o design são portos fortes, que prevalecem e nos distinguem. Falamos sobre moda e têxtil e queremos passar uma imagem renovada daquilo que é, hoje em dia, este setor: que já deixou de ser aquela coisa pesada e “monocromática” de há uns anos. Por isso, a meu ver (e para além de adorar o cartão), penso que é até é coerente com aquilo que somos. Mas fica a questão: divertido e cativante ou pouco profissional?

     

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  • Eu, ignorante de leguminosas, me confesso

    Gosto de todas as semanas ir à feira – já o tinha dito aqui que, para além de ser velhinha de alma por todas as outras razões, até nisto pareço ter 80 anos. Vou à feira, levo carrinho de mão para não transportar os quilos de fruta nos braços e, se tal não bastasse, ainda lá vou ao início da manhã, antes de ir para o trabalho.

    A verdade é que no verão não é estritamente necessário ir com as galinhas, porque só costumo ir à fruta e essa há sempre para dar e vender, mas nesta altura do ano gosto sempre de comprar agriões – que não tenho aqui na horta e são os meus legumes favoritos para pôr na sopa – o que só se arranja de manhã (pelo menos vivos e com bom aspeto, porque depois do meio dia, os que sobraram, já estão todos com um ar morto e enterrado). O problema é que eu sou uma ignorante no que a leguminosas diz respeito. 

    Normalmente faço-me de hiper distraída, olho para a banca cheia de tralhas com um ar meio esgazeado, como se não encontrasse nada, e pergunto à senhora a quem compro sempre os legumes: “Bom dia! Então e agriões, não tem?”. E ela lá me diz, com um sotaque carregado, que “estão aí em baixo, do seu lado esquerdo” ou “estão mesmo à sua frente, freguesa!”. Mas hoje era ela que estava (verdadeiramente) esgazeada, com clientes para trás e para a frente e sem tempo para olhar para o lado, e eu senti que tinha de arriscar se não queria ficar ali a manhã inteira. Já me tinha acontecido e quando cheguei a casa levei um sermão porque em vez de agriões… trouxe espinafres.

    E hoje, enquanto me baixava para apanhar os meus espero-que-sejam-agriões, rezava para não me enganar. Pus um molho numa saca, outro noutra. Nisto, uma senhora pergunta “menina, não tem espinafres???”. “Tenho querida, estão ali”. O “ali” era ao meu lado. Sim, no sítio onde tinha ido os buscar os meus espero-que-sejam-agriões. Mas a verdade é que as coisas estavam todas empilhadas, coladinhas umas às outras, um manto de verde sem fim. Olhei para aquilo em que a senhora tinha pegado e que tinha a certeza serem espinafres e olhei para o que tinha no meu saco. Olhei de novo. E de novo. E depois de nem sequer conseguir ver muitas diferenças, aceitei o facto de que mesmo que fossem espinafres aquilo que eu tinha ensacado, já não ia ter lata para os pôr de novo no sítio e pegar nos agriões-verdadeiros. Pedi para pagar e o meu coração relaxou um bocadinho quando ela me pediu 70 cêntimos por molho – é aquilo que pago sempre, mas uma pessoa nunca sabe se os espinafres valem o mesmo. Por isso fiz a prova de fogo: vim para casa.

    Mal cheguei, avisei logo: “acho que trouxe espinafres”. Mas não! Afinal eram mesmo agriões. Acho que tenho uma inaptidão natural para comprar legumes. Ou então sou mesmo cegueta.

     

    (E olá! Estou de volta!)

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  • Sobre uns dias negros de uma vida (ainda que passageiros)

    Quando estamos no pico do verão, com um calor dos ananases em que mal se consegue respirar, eu às vezes olho para as roupas de inverno – as malhas, as lãs, as caxemiras, as golas altas – e penso “como é que eu consigo usar aquilo?”. A sensação térmica que estou a sentir naquele momento varre-me completamente da memória aquilo que é o frio e que nem sempre estão 35º; que às vezes estão 2º,5º,7º e que de facto eu tenho muito frio e preciso daquilo tudo para me sentir bem. São dois pólos tão distantes que parecem irreais.

    E é isso que tenho sentido nos últimos tempos. Neste momento estou no inverno, com chuva e tempestade, e penso nos tempos quentes, bons e felizes e até me questiono até que ponto é que aquilo aconteceu mesmo. Da mesma forma que eu, no pico do verão, olho para as camisolas de lã e penso “como raio é que eu uso isto”, agora tenho olhado para os meus últimos meses e penso “eu consegui mesmo estar assim tão bem?”. Parece mentira, quando agora sinto o oposto.

    E acho que a dor agora ainda é pior, por saber que já estive bem, que consigo estar numa posição melhor que esta, por saber que sou melhor que isto. Sou aquele tipo de pessoa que nunca precisou de grandes raspanetes: porque antes de alguém mos dar, já eu estava a auto-chicotear-me mentalmente pela merda que tinha feito; as pessoas mais próximas de mim sabiam que repreender-me era uma segunda punição, porque a primeira era automaticamente dada por mim. E é isso que acontece aqui, todos os dias. Para além de tudo mais, para além de todas as razões no mundo que encontro para me deitar abaixo, ainda tenho uma voz crítica por cima do ombro que quase me insulta por isto estar a acontecer. Outra vez. Mais uma vez. 

    A verdade é que quando estamos na mó de cima nos esquecemos do que é estar na mó de baixo. E os obstáculos são muito mais fáceis de saltar quando nos sentimos bem, inspirados, felizes e achamos que conseguimos conquistar o mundo. O problema é quando não estamos assim tão bem. Eu não sei quando nem como isto começou, mas acho que foi simplesmente despoletado por cansaço e por um alvoroço de emoções num curto espaço de tempo. Sinto que regredi tanto, tanto, tanto nestas duas semanas – e dói tanto, tanto, tanto sentir isso quando tinhas tanto orgulho em tudo aquilo que conquistaste.

    O meu trabalho obriga-me a saltar, todos os dias, a minha zona de conforto – e isso, nos dias bons, é difícil, mas faz-se. E quando se faz, sabe maravilhosamente bem. Mas nos dias maus, parece uma missão tão impossível como subir o Himalaias. E olhar para o meu trabalho, que é sinceramente das coisas que mais me preenche na vida porque é das poucas que eu sinto que faço bem, e perceber que não o estou a conseguir fazer, que tenho prazos para cumprir mas que não estou a ultrapassar determinadas barreiras para os conseguir obdeceder… é de cortar a respiração. Ter de falar com pessoas, nas últimas semanas, virou outra vez um bicho de sete cabeças. 

    Depois segue-se tudo o resto. É a velha história: uma pessoa, depois de tanto chorar, já nem sabe de que chora. Abrem-se gavetas que nós nem nos lembramos, as feridas pequenas já parecem autênticas cirurgias e todos os bichinhos que tínhamos guardados no sótão voltam a pairar à nossa volta. Oh, e se voltou tudo. 

    Vou acabar uma série de trabalhos que tenho pendentes e que me estão a pesar nos ombros há demasiado tempo, depois vou respirar e voltar ao normal. Ao meu novo normal – aquele, de há uns meses atrás. Porque isto, esta Carolina, eu conheço de ginjeira. E detesto-a, o que piora tudo: porque vivermos diariamente com alguém que detestamos mata-nos por dentro. Assim como me mata dizerem-me que já não me reconhecem assim, porque só eu como me custa desiludir os outros; “onde está a Carolina decidida, racional, com objetivos?”. Meu deus, como eu queria saber.

     

    [obrigada por todos os comentários e palavras de carinho. não vou responder e não volto a escrever sobre isto enquanto esta crise não me passar. não me apetece dissertar sobre tristezas, dores e depressões, quando já percebi que há todo um mundo melhor para além disto. são estados de espírito que não quero promover e que não quero, no meu caso, prolongar. vai passar 🙂 ]

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  • Letargia

    No início era a letargia. Aliás, se me perguntarem uma das coisas que mais detesto em mim, é esta veia letárgica. Se calhar, quando me questionam sobre os meus defeitos, eu lembro-me de tanta coisa e com nomes tão mais simples que são os primeiros que disparo; mas que não haja dúvidas que a letargia tem um viveiro algures cá dentro e é das coisas que mais mexe comigo. Ainda me recordo mais ao menos da altura em que descobri esta palavra e pensei “isto é tão eu; este é o meu mal”. E é verdade.

    Mas é isto: aí há umas duas semanas, a letargia instalou-se. Não sei se sabem, mas ela é assim tipo fungo: a partir do momento em que se aloja em alguém, é o fim do mundo para a tirar. Pode adormecer, mas volta sempre. E voltou em força e eu, que já não a via há muito tempo, deixei-me engolir. E a partir daí trava-se todo um processo diabólico, que me faz sinceramente sofrer. É aquela história do diabo e do anjo que se instalam nos nossos ombros e berram um com o outro. O diabo encarrega-se de me levar pela ribanceira abaixo, rindo-se maléficamente por eu me deixar ir; mas enquanto isso o anjo mói-me o juízo, grita-me aos ouvidos “porque raio é que te estás a ir abaixo quando não tens razão absolutamente nenhuma para te queixares, sua parva?”. E aí, para além da letargia, eu fico irritada e chateada comigo mesma, porque o raio do anjo tem razão, porque eu estou bem, porque não tenho razão para estar assim quando há tanta gente mal no mundo, mas estou cansada, porra, e sinto-me mal na minha pele, e não tenho força de vontade para me meter num ginásio, e há coisas que não estão a correr como eu queria, e não ando com vontade de trabalhar, e acho que tenho vinte doenças e mais algumas, e preciso de sol e de algo que me dê vida e… e… sentiram-se cansados ao ler isto, não sentiram? É que eu sinto.

    Ando triste, cansada, desinspirada, sem força, adoentada. Tenho-me sentido incompetente, sinto que estou a falhar, para comigo e para com os outros. Não tenho tido a capacidade de me superar e isso entristece-me imenso. E, por outro lado, sinto que já não sou esta pessoa que vive neste lado negro: sei que tenho um lado melhor de mim cá dentro, porque já o vivi, já o senti, já o transmiti aos outros. Mas má onda traz má onda, a ansiedade também se alojou em mim e trouxe-me mais uma série de problemas, começo a questionar as minhas decisões e escolhas, e tudo isto é como uma bola de neve que me engole sem eu conseguir pôr a cabeça de fora para respirar.

    Se alguém se questionou pela falta de posts, esta é a razão. Não aconteceu nada. Sou só eu, a ser eu, no meu pior. Estou a tentar vir ao de cima.

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  • Review da semana 17#

    Here WeGo

     

    Quando estive em Madrid, na altura de jantar, o pessoal que estava comigo decidiu o restaurante onde íamos e ligou o que me pareceu o GPS do telemóvel para saber o caminho certo, desde o hotel ao restaurante. Pelo caminho trocavam bitaites, porque o telemóvel de uns dizia para ir por um lado, o de outros dizia para ir por outro. E só pelo andar da conversa é que percebi que aquilo que eles estavam a utilizar não era o GPS mas sim várias aplicações que utilizavam o GPS, mas não gastavam internet (como eu, mente brilhante, fazia até então).

    Perguntei a um deles como se chamava a aplicação: é a Here WeGo. O que aquilo faz é descarregar os mapas do sítio onde o utilizador está (em viagem pode descarregar-se com o wi-fi do hotel, por exempo) e depois pode-se utilizar aquilo em offline, sendo que o telemóvel só necessita da vossa posição geográfica para vos dar direções (utilizando o GPS e não a internet, algo necessário quando se utiliza, por exemplo, o Google Maps).

    Quando fui para Munique e andei sozinha, foi o que me safou. Pus um “pin” em cima do meu hotel e depois, sempre que estava noutro qualquer ponto da cidade e queria voltar a pé, era só pedir o caminho de volta. Aquilo, à partida, não é a coisa mais intuitiva do mundo – funciona com “vire a norte” e “vire a oeste” (o que para pessoas normais e meias desgovernadas, pode ser um pouco confuso), mas depois de se perceber a lógica é sempre a virar frangos. Para mim foi particularmente útil porque, a certa altura, já não tinha sequer net para gastar, esqueci-me do papel com as informações do hotel e estava desesperada por voltar (para ir buscar o dinheiro e o passaporte que tinha deixado no cofre), por isso só tenho a agradecer ao meu sentido de orientação e ao Here WeGo por ter chegado a todos os sítios, sã e salva e sem qualquer registo de perdas pelo caminho.

    A aplicação é gratuita e está disponível em iOS e Android.

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  • Ora então… bom Carnaval!

    Que me perdoem os foliões, mas eu não gosto nada do Carnaval. Acho que mesmo quando era pequena não era algo com que vibrasse muito. Tive um Carnaval que me marcou muitíssimo, passado com a minha família, mas não passa disso. Acho que a última vez que me fantasiei foi há uns oito anos, para uma festa onde uma amiga minha me levou de arrasto: fui de gato, esquecendo-me (na minha inocência) de que este animal fofinho tem uma conotação meio sexual, e passei a noite a ouvir “miaus” e coisas do género. Já não me bastava ter de estar numa festa e ainda levei com aquilo. Jurei que, enquanto me lembrasse, não me metia noutra (e, como se vê, ainda me lembro muito bem, portanto o retorno não está para breve).

    Mas a verdade é que mesmo não participando no Carnaval há já muitos anos, em Maio do ano passado tive os meus 10 minutos carnavalescos, patrocinados obrigados pela minha mãe. Quando em Londres, numa visita a Camden, andávamos lá às voltas até que a minha mãe encontrou uma espécie de estúdio de fotografia, onde as pessoas se mascaravam para fazer sessões fotográficas temáticas; sei que havia três temas possíveis, mas só me lembro das damas antigas e da máfia. No fundo, é um souvenir personalizado (e caro) de uma visita a Londres.

    A minha mãe delirou com aquilo, adorou a ideia, mas eu disse logo que nem pensar, não me ia vestir coisíssima nenhuma. Mas o dia não nos estava a correr bem, estávamos com o estado de espírito pelas ruas da amargura e, numa segunda passagem, a minha mãe voltou a folhear as fotos que havia à entrada e quis fazer uma coisa daquelas. E, pronto, uma pessoa pelas mães faz tudo. Lá escolhemos o tema, as roupas e os acessórios (eram postos por cima das nossas roupas), as raparigas puseram-nos um bocado de maquilhagem e lá fizemos a sessão fotográfica. Foi uma coisa de partir o coco a rir, eu achava que estava alucinar e nem me acreditava que me tinha metido naquilo. O fotógrafo dizia-nos como segurar no livro, para levantar o queixo, para olhar para o canto, para fazer isto e aquilo… e eu estava sempre à beira de um ataque de riso.

    Ataque de riso esse que aconteceu mal nos sentamos no sofá e começamos a ver as fotos. Nem sequer consigo explicar bem, mas sei que estavam já outras pessoas a ser fotografadas (aquilo era um open-space, só com umas cortinas, o cenário era todo o mesmo para os diferentes temas mas tinha “cantos” específicos para cada um) e eu e a minha mãe começamos a rir-nos estéricamente daquilo que estava a passar no ecrã. Eu chorava, chorava, chorava de rir… acho que mal respirava. De cada vez que a rapariga mostrava uma nova, eu ia morrendo. Foi uma risota pegada e um drama para conseguirmos escolher três para imprimirmos e trazermos para casa (no início, só pensávamos trazer duas… mas as pérolas eram tantas que não deu para evitar).

    Lá escolhemos, pagamos e mais tarde passamos para as levantar. Quando as vimos, voltamos a rir-nos à gargalhada. De facto, a experiência teve muita graça, mas aquilo é algo tão fora de mim que só mostrei as fotos a um par de pessoas (já a minha mãe, mesmo contra todos os meus pedidos, esparramou aquilo no facebook…). Ainda hoje, quando passo pela foto que a minha mãe emoldurou (!!!), me encolho de vergonha. Sim, teve graça, mas ainda não me acredito que posei como Dama Antiga, com um fotógrafo a dizer-me o que fazer e o diabo a quatro. 

    Há uns dias, enquanto pensava no Carnaval e nos posts aqui no blog, lembrei-me disto. É uma pérola que tenho escondida há quase um ano – aliás, quando tive as fotos na mão, achei que as ia guardar para a vida. Mas a verdade é que há coisas demasiado boas para estarem escondidas – e embora esta seja uma faceta que, no meu caso, é pouco comum e que, sinceramente, eu tenho muita dificuldade em mostrar, ela há-de existir algures em mim. Por isso, meus amigos, bom Carnaval.

     

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