• Os vestidos dos Óscares (ou o convite que motivou toda aquela desgraça)

    Já se sabia que este ano os Óscares iam ser marcados por todos aqueles movimentos anti-assédio sexual e pró-poder feminino, tal como havia acontecido nas outras entregas de prémios – embora, daquilo que eu vi, até tenha sido tudo bem mais ligeiro que nas outras cerimónias. Foi light em tudo, aliás: foram muitas as figuras de peso que faltaram a esta gala e nada do que por lá passou teve o fator “uau” ou sequer o esforço para o ser (cadê aqueles vestidos enormes, que ocupavam 2/3 da passadeira ou aqueles grandiosos e todos aprincesados?).

    A cor e a diversidade voltaram à passadeira vermelha, mas não deixou de haver elos comuns entre a maior parte das celebridades. O primeiro é que apesar de podres de ricos, famosos e de terem à disposição os melhores estilistas do mundo, conseguem a proeza de se vestir horrivelmente; o segundo foi o convite que muitas das senhoras receberam e que eu, graças aos meus connects em Hollywood, tive hipótese de dar conhecer. Ei-lo:

     

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    É verdade. Para além do típico dress code de gala, este ano houve muita gente que recebeu este convite especial. E, como bons cumpridores que são, eis os resultados – para todos os gostos e feitios:

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    Maminhas-aparentemente-tortas:

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    Maminhas-quase-a-fugir-pela-lateral:

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     Maminhas-aparentemente-escondidas-mas-pouco:

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    Maminhas-de-facto-escondidas-mas…ups!:

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    Maminhas que precisavam de mais pano e um bocadinho menos de gravidade. Ou “ai-valha-me-deus-que-isto-está-a-transbordar!”:

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     Quanto a todos os outros que não receberam este convite especial, aqui vai disto:

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     Selma Hayek ainda não despiu o fato de pequena sereia que usou no Carnaval. Até o cabelo ainda está assim meio molhado-visgoso, recheado daquela gosma especial que envolve estas criaturas míticas. Aqueles acessórios que traz por cima ainda são os colares que recebeu no Mardi Gras.

     

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     Não interessa se não gostamos do vestido, se não gostamos da senhora, se está fora de moda ou lhe fica mal. Isto é tudo uma questão de inveja. Rita Moreno usou este vestido nos Óscares há 56 anos atrás. E com 86 anos em cima voltou a caber no vestido que usou com 30. Sambando na cara das inimigas. Eu não caibo na roupa que tinha há dois anos, quanto mais!

     

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     Não me digam que houve matiné no cabaré ali do lado e ninguém avisou a rapariga que hoje não se podia entrar pela porta das traseiras?!

     

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     A Camilla veio arranjar o cabelo a Faro e, quando ia embora, passou-lhe aquele mini-tornado por cima. Nem a laca a safou.

     

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    Em todas as festas recebem-se prendas indesejadas. Daquelas muito direitinhas e insossas, sabem? E o pior é que continuam a sê-lo mesmo que sejam bem embrulhadas com um laço gigante. Blhec.

     

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     Nem quero acreditar que a Emma Stone me fez isto. Não quero olhar, não quero ver, não quero saber. Espero ao menos que a reunião de negócios de que ela acabou de sair tenha corrido bem.

     

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     Acho a Gina Rodriguez uma fofinha e apesar de também ter recebido aquele convite especial, soube usa-lo da melhor forma. Foi um dos meus favoritos.

     

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     A Emily Blunt ainda não conseguiu despir o papel de rainha do gelo de um filme que interpretou em 2016. O vestido não é mau, só o conjunto vestido-cabelo-pele-fundo é demasiado branco. Um bocadinho de auto-bronzeador há três dias atrás e estava um brinco.

     

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     Da rainha do gelo passamos para o calor de Baywatch. Foi só acrescentar as pernas ao fato-de-banho e voilà.

     

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    Será que a Viola andou pela passadeira a mascar pastilha elástica? Com aquela cor de vestido, aquele decote, aquele penteado e aquelas argolas… o lugar mais improvável para ela estar nestes preparos é mesmo os Óscares. (Fui só eu que comecei a cantar “Chiclete, prova! Chiclete, mastiga! Chiclete, deita fora! Chiclete, sem demora!” quando viu isto?)

     

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     The statue itself. Esta tem mais de quatro quilos… mas pouco.

     

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     É um real infortúnio ser engolida por um pedaço de relva precisamente no dia das cerimónia dos Óscares.

     

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     Desculpem… quando eu falei em vestidos grandiosos não era isto que eu queria dizer.

     

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    Vê-se logo que esta senhora é uma boa dona de casa. Primeiro porque sabe a melhor técnica de todas para limpar o linóleo da cozinha (rabo no chão e trapos vestidos) e segundo porque aquelas unhacas são ideias para limpar os restos de comida que ficam presos naquelas tampas cheias de orifícios dos robôts de cozinha. Aliás, aquelas coisas que ela tem lá coladas ainda são restos do almoço.

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  • Devemos incluir os blogs no nosso currículo?

    Detesto ter de fazer o meu currículo. Detestei da primeira vez que o fiz e detesto de cada vez que tenho de o atualizar (algo que acontece frequentemente, para efeitos formais, mesmo estando a trabalhar). É ingrato termos de resumir todo o nosso percurso num papel, em pequenas frases, que podem estar recheadas de mentiras ou que podem não chegar aos calcanhares daquilo que somos na realidade. Mas enfim, tem de ser, sei que não há muitas formas melhores que sirvam para o efeito.

    Mas no meio de todo este processo de escrita e concepção deste documento sou sempre invadida por imensas dúvidas: devo fazer um currículo vitae normal, estilo europass, insosso e desenxabido, ou devo fazer uma coisa mais visual, mais dinâmica e bonita? Devo incluir hobbies e um breve resumo de mim própria ou restrinjo-me ao percurso profissional e académico?

    No meio disto tudo, surge-me sempre uma pergunta: incluo ou não incluo os blogs que tenho e tive? É que isto pode ser interpretado de várias formas e tem muitos pontos de vista. Antes de mais, o mais óbvio: só com aquele ponto estamos a dar muitas informações sobre nós próprios, basta alguém aceder ao dito site. Nem todos os blogs são diários abertos, mas todos têm muito de quem os escreve, nem que sejam opiniões – o que, só por si, já revela muito do que cada um é. E essa exposição à partida pode ser tão boa como má.

    Depois há o risco da pessoa que lê o currículo não saber o trabalho que dá ter um blog. Ou ser preconceituosa e pensar “olha, esta já teve um blog sobre Twilight, deve mesmo ser uma pessoa hiper adulta, ah ah ah”. E, como sempre, há o outro lado da moeda: podemos sempre apanhar alguém que se apercebe e sabe que para se manter um blog durante anos a fio é preciso ter paciência, perseverança e empenho.

    Penso muito nisto. Sempre que chego à parte de referir “outras experiências” fico sempre bloqueada. Digo, não digo. Digo, não digo. Sou da opinião de que devemos adequar o nosso currículo perante o objetivo que temos ou diferentes propostas de trabalho – evidenciando umas coisas ou tirando outras que, para aquela situação, não sejam relevantes. Mas, neste caso (e no meu em particular), os blogs são uma parte essencial da minha vida há muito tempo.

    Escrevo neste blog há sete anos, tenho blogs há nove. Durante cerca de quatro anos levantei-me todos os dias às sete da manhã, antes de ir para as aulas, para deixar posts programados para o dia inteiro; organizei eventos e falei para vários meios de comunicação social quando a maioridade não estava sequer à vista; fiz parte (e fiz por!) de um blog que estava no top 5 dos mais visitados do país, numa altura em que os blogs eram, por um lado muito mais genuínos e movimentados, mas por outro tinham muito menos “nome”; o primeiro dinheiro que eu ganhei foi um cheque da Google, devido a esse mesmo blog. Já este, ainda que mais pequeno em termos de escala e número de posts, está no ar vai fazer sete anos: viu-me cheia de medo, a trocar as ciências pelas letras; viu-me a entrar na faculdade, a detestar a faculdade, a sair da faculdade; viu-me a estagiar, a fazer as minhas últimas férias grandes, a arranjar o meu primeiro trabalho. E tudo o que se passou no meio disso. Já me “vê” há muitos anos, basicamente.

    E isto, tudo isto, é de valor. Eu sei que é e não tenho vergonha de o mostrar. Só tenho medo que não o entendam – porque, lá está, o currículo é curto, o tempo para olhar para ele é pouco e a hipótese de nos explicarmos é menor ainda. Pôr ou não pôr, eis a questão.

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  • A culpa é da Netflix

    A Netflix é um buraco negro. Um poço sem fundo. Um horizonte sem fim à vista.

    A Netflix é o antro de toda e qualquer procrastinação dos dias de hoje. Passou a ser a razão pela qual muita gente tosse ao telefone e diz ao chefe “estar doente” ou aos amigos, com quem tinha combinado uma saída, “que está a chocar uma gripe e é melhor ficar em casa”. É a SportTV dos dias de hoje, para quem gosta de outros campeonatos e maratonas, e para todos os “ernestos” que tentam roubar as palavras-passes dos honestos que pagam dez euros por mês para olharem para este infinito televisivo.

    A Netflix não é a culpada por eu não escrever aqui, mas podia, porque seria demasiado humilde da minha parte assumir as responsabilidades perante algo que, na verdade, está somente a meu cargo (hoje em dia é assim que se faz, não é? Descartar tudo para cima dos outros, mesmo que esses “outros” sejam objetos inanimados que não têm como responder em sua defesa?). Deitemos as culpas sobre Narcos, então, já que o que não falta lá são tipos com as costas largas.

     

    Mas agora a sério: a verdade é que, apesar de tudo isto, eu venho aqui anunciar-me como uma utilizadora muito controlada desta plataforma tão boa que é quase demoníaca. Eu acho que sou das poucas pessoas à face da terra capaz de consumir apenas um episódio de qualquer série, sem ter vontade de a devorar de uma só vez.

    Confesso até que me faz confusão quem consegue estar uma tarde inteira a ver a mesma coisa. A mim, o sono prega-me uma rasteira e, a meio do segundo episódio, já estou encostada a um canto do sofá só a ouvir o ruído de fundo.

    Eu gosto de prolongar o prazer, gosto de saber que amanhã tenho mais um bocadinho de série para ver. E se não for amanhã, vejo para a semana. Dou-me bem com as séries transmitidas na televisão, em que vejo só um episódio de sete em sete dias (com excepção das vezes em que, do nada, decidem não transmitir o dito sem aviso prévio, e aí apetece-me esganar alguém…). Assim consigo espalhar as séries pelos dias da semana, vejo uma num dia, um no outro e consigo encaixar tudo no meu horário.

    O pior é que nem todos são utilizadores moderados como eu. Às vezes introduzo séries ao pessoal aqui de casa (só naquela de não estar sozinha no sofá e poder comentar estas coisas à hora das refeições) e, quando dou conta, já eles me passaram a perna e estão dois ou três episódios à minha frente. O quê que acontece depois? Para eu continuar a desfrutar da sua companhia, passo a vida a “comer” episódios, até eventualmente desistir da série por apanhar tudo aos bocados.

    Aconteceu com a segunda temporada do The Crown, que eu ainda hei-de voltar a ver. Aconteceu com a série sobre o Einstein, que dava no National Geographic (e que, infelizmente, não sei se voltarei a pegar). E, neste preciso momento, acontece com o Narcos. Acreditem que eu vinha escrever, mas dizem-me “o que é que vais fazer? Eu vou ver mais um episódio” e eu, fraca, cedo à tentação. Pouco depois, e porque o sofá à noite não me dá tréguas, já estou a tirar uma sesta em vez de olhar para a televisão. Ou seja: nem série, nem escrita, nem piano, nem o raio que o parta.

    Como se já não bastasse ter de apanhar o fio à meada das séries que vou deixando pelo caminho (ou que me roubam pelo caminho, talvez seja melhor dizer assim…), há tantas outras que me passam a vida a piscar o olho mal abro o raio do Netflix. La Casa de Papel, Stranger Things, Tempo entre Costuras, The End of the F**king World. O Outlander que também deixei pelo caminho, assim como Making a Murderer…

    Caraças, quem criou a Netflix deve estar a rir-se na cara de quem precisa de trabalhar. (E eu aqui, a roubar horas do meu sono, com a consciência pesada de quem pecou – que é como quem diz, passou mais horas nesta aplicação do que devia e agora está a escrever a horas impróprias para consumo.)

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  • Quatro mãos num piano e uma música especial

    No fim do último recital de piano do ano passado a minha professora entregou-me aquela que viria a ser a minha música de Janeiro (todos os meses apresentamos músicas novas, que estão sujeitas ao tema do mês). Neste início do ano o mote eram peças a quatro mãos. Normalmente somos nós que escolhemos a música que mais gostamos e começamos a estudar a partir daí, mas naquele dia ela entregou-me aquela peça, que achava que era a minha cara, e assim ficou. O primeiro baque deu-se quando eu olhei para a pauta. As pautas, aliás. Eram dez: cinco para ela, cinco para mim (pânico!). O segundo  foi quando eu ouvi a parte dela e nem sequer percebia por onde os seus dedos andavam. E o terceiro foi quando, em casa, percebi a extensão e a dificuldade da música.

    Tive a opção de fazer uma estafeta, em que vários alunos tocavam uma pauta da peça. Mas fui esperançosa e um tanto ao quanto gananciosa quando decidi ficar com ela toda para mim. Assim, fiz contas à minha vida, decidi fazer o esforço e dar mais meia hora do meu dia ao piano (para além do tempo que já dou habitualmente) para conseguir ter a peça pronta a tempo.

    Acabou por ser uma jornada e tanto. De uma peça que eu desconhecia (assim como a maioria), passou a ser algo que faz parte de mim; nem sequer era uma música que eu ouvisse pela primeira vez e me apaixonasse. Mas, como me foi atribuída pela professora, com o significado que isso tem, deixei-me ir… e todas aquelas horas que passei a treinar acabaram por me fazer perceber o quanto eu podia gostar da peça e o quanto eu já gosto de tocar piano. Apesar da luta que me deu – e não foi pouca – foram sempre momentos de puro prazer.

    Sim, porque tocar uma peça a quatro mãos tem que se lhe diga. A principal dificuldade é a coordenação – para além das duas pessoas terem de estar “alinhadas”, as suas peças têm de estar perfeitas ao nível dos tempos, senão o resultado final não vai soar direito. Como só podia tocar com a minha professora durante uns quinze minutos por semana – e por eu ser um tanto ao quanto obsessiva no que o piano diz respeito – estava a dar em maluca – primeiro porque não estava a conseguir alinhar-me com ela, segundo porque aquilo que eu tocava parecia estar sempre descontextualizado. A solução para tudo isto envolveu o uso do metrónomo (foram muitas horas a ouvir aquele horroroso “toc toc toc plim! toc toc toc plim!” enquanto tentava tocar nos tempos certos) e a tocar ao mesmo tempo que uns russos – dos poucos que disponibilizaram a música no Youtube – de forma a conseguir perceber onde devia entrar e interiorizar a parte da minha professora. Para além de tudo isto, por a peça ser enorme, eu tinha mesmo de ler a pauta – era-me impossível decorar aquilo tudo!

    Cheguei ao fim do mês com a peça pronta. Encravei em muitas partes ao longo do processo, ainda hoje há trechos que eu respiro fundo antes de tocar, mas quando ficou pronta (e a gravei) fiquei com uma sensação agridoce: por um lado de dever cumprido, por outra triste por esta jornada partilhada ter acabado. Foi a primeira vez que senti no piano uma extensão de mim. Mais tarde toquei-a no recital, correu-me terrivelmente e fiquei despedaçada: tantas horas para depois me enganar na hora H. Enfim, acontece. Ao menos já tenho o vídeo como prova. 

    As peças nunca estão acabadas, nunca estão perfeitas, por muito que as toquemos – e aqui cabem anos! Sei que se tocar isto daqui a um ano, tudo vai soar melhor – já vejo isso quando toco peças que aprendi há quatro meses atrás. Mas sinto que se não partilhar esta música com os meus, não partilho mais nenhuma. Mesmo sabendo que daqui a uns tempos vai soar melhor, mesmo detestando a minha cara de concentração profunda enquanto toco. Esta teve um sabor especial. Para a maioria, será só mais uma; para mim, acho que vai ser sempre “uma das”.  

     

    Sonatina by Diabelli; Op.163 n.1, quatro mãos:

    (são cinco minutos de vídeo, sei que estou a testar a paciência até aos mais pacientes. se quiserem só uma amostra, saltem para os 4.30min)

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  • O parafutebol (ou como o Bruno de Carvalho contribui para a degradação do futebol português)

    Tinha os meus nove anos e era louquinha pelo FCPorto. Nem digo por “futebol”, porque eu estava-me pouco borrifando para os outros clubes. Eu era do Porto. Ponto. Via os jogos, punha o cachecol com o símbolo ao peito e fazia de tudo para ir ao estádio. Era – e sou – orgulhosamente sócia, mas também era miúda e fazia coisas que eram de miúdos. Detestava Lisboa, dizia mal do Benfica a todo e qualquer benfiquista que se aproximasse mais de dois metros de mim e gozava pelos campeonatos que, na altura, eles perdiam consecutivamente.

    E depois cresci. Fui ficando com menos tempo para ver futebol e portanto aquela febre clubística que eu tinha foi desaparecendo. Isto coincidiu também com uma fase menos boa do FCPorto e, tudo junto, fez com que tivesse mais juízo, racionalidade e imparcialidade no que ao futebol diz respeito. Mas também fui ficando mais crescida e percebi que aquilo que eu fazia era típico de uma idade e que estava na altura de deixar isso para trás. Deixei de irritar os outros – e até de demonstrar grandes clubismos em público, a menos que esteja num local próprio para isso. Por um lado porque deixou de me dar prazer, por outro porque percebi que um dia são eles, no outro sou eu, e aquilo que eu um dia digo pode cair-me em cima no outro a seguir (estás a ler isto, Sousa Tavares?). E com isto tiro também a capacidade dos outros me irritarem – algo que acontecia sempre que diziam mal do meu Portinho – pelo menos quando falamos de atitudes dentro do limite do razoável. 

    Continuo a adorar de paixão o meu clube. Agora que sou maior de idade já posso ir ao estádio sem um pendura e estou numa fase em que acabo por falar bastante de futebol, por só trabalhar com homens um tanto ao quanto fanáticos. O Porto está a recuperar e por isso eu tinha tudo para revitalizar esta minha alma de dragão – já sem os histerismos de antigamente – mas agora há toda uma outra razão para não me entusiasmar. Não se trata do futebol em si – é, aliás, tudo o que se passa à volta dele. Hoje em dia o futebol é muito mais aquilo que se joga fora de campo do que dentro dele.

    São os comentadores de bancada que ocupam todas as noites os canais informativos, com ataques pessoais e comentando os ataques dos outros, e cada vez menos os lances, os jogos e os jogadores; são os próprios clubes que enchem as redes sociais de queixumes e porcaria; são os diretores de comunicação que se põem a mandar postas de pescadas e revelações, qual wikileaks; é arguidos para um lado, suspeitos por outro. É tudo um nojo. Ah! E depois temos o Bruno de Carvalho, que cai em toda uma outra categoria (“asco”, talvez?).

    Não sou fã do senhor, mas penso que isso é uma coisa natural. O que não me parece natural é quem gosta dele – e, caros sportinguistas, escusam de me dizer que ele fez muito pelo clube, que vestiu a camisola e que é um leão às direitas. De direita, só parece ter o ar ditatorial com que diz que os sócios devem deixar de ver televisão e comprar jornais, e que “todos, mas todos os comentadores afetos ao Sporting” devem abandonar de imediato os programas. Todos temos a nossa vertente pessoal e profissional. Ele pode ser um óptimo presidente (até custa a escrever…) mas uma pessoa que afirma que ajudou um treinador a ser despedido de outro clube – e o faz com orgulho, a alto e bom som -, para mim, é lixo. E depois, se ouvirmos tudo o que ele diz e comenta sobre todos os assuntos em geral – e já tendo em conta o pedido de boicote aos media – só lhe resta mesmo algum estatuto abaixo de lixo.

    Eu acho que não estou a ofender ninguém com este texto. Qualquer sportinguista com o mínimo de imparcialidade e racionalidade percebe tudo isto. O pior são mesmo os outros. Mais preocupante do que ter uma pessoa destas a falar nos media, é ter quem os ouça. E quando eu ouvi os urros e as palmas vindas da plateia de cada vez que Bruno de Carvalho dizia uma das suas baboseiras, um bocadinho da minha esperança na humanidade ia pelo cano. E muito mais se foi quando percebi que, depois do apelo do Sr. Presidente, os adeptos não têm mais nada senão tentar bater em jornalistas. É de arrepiar, não só pelo ato em si, mas por percebermos que pessoas deste calibre têm tanto impacto em pessoas “normais”. Se passarmos isto a outra escala, percebemos como é que o Holocausto existiu, percebemos a existência de um Hitler, percebemos aquelas paradas, aquelas lágrimas, aquele patriotismo. Percebemos que as pessoas ficam cegas, surdas e burras quando há algo “maior” que as controla. E isso é puramente assustador. E é este capítulo sujo e paralelo do futebol (chamei-lhe “parafutebol”, estou numa de neologismos) que me faz afastar cada vez mais deste desporto.

    Não importam os 5-0, as chicotadas psicológicas ou as “tacitas” mais pequenas. Passou a ser um desporto de guerrilha. Mais vale, um dia destes, irmos buscar as espadas. Depois é só esperar até ver jorrar o sangue. Afinal de contas, desde os tempos medievais que é disso que o povo gosta.

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  • Sobre os recomeços (ainda que este não seja um)

    Mais de uma semana sem publicar. Auch. Que rico pontapé no meu ego esperançoso e no meu lema “quanto mais treinares, melhor escreverás”. Estou a passar uma daquelas fases em que parece que tudo está a acontecer ao mesmo tempo. Aniversários aos fins-de-semana, recitais de piano, tentativa de uma maratona pré-filmes-dos-óscares, entusiasmo máximo (dentro do possível) em relação ao ginásio, almoço num lado, workshop à tarde noutro sítio, aulas de piano, fazer bolos para as festas de aniversário, miúdos de férias aqui em casa. Wow. Isto tudo junto com “aquela semana do mês”. E não, não é o que estão a pensar: falo no fecho de mais uma edição do jornal. 

    O início de cada mês passou a ser uma altura em que quase me retiro do mundo dos comuns mortais e só me consigo dedicar ao trabalho. Vou poupar-vos os detalhes daquilo que é o processo exaustivo de fechar um jornal, mas deixem-me só dizer que é um processo moroso, trabalhoso e muito contraindicado para os nossos olhos – e eu trato de um mensal, pudera se fosse semanal. Ou diário (credo!). Dezembro foi o primeiro mês em que fiz isto – que coincidiu com o meu projeto natalício e tudo aquilo que envolve esta época – e agora senti que tudo voltou a coincidir no mesmo período temporal. Senti o mundo em cima de mim. A pressão do trabalho em cima de mim. A pressão dos outros em cima de mim. E a pior: a pressão que eu faço sobre mim mesma.

    Enfim: o jornal já está impresso. Sobrevivi. Mas daqui a três semanas tenho de ter outro nas mãos, o que resume os poucos dias de “descanso” que terei até lá e todos os alertas que continuam “on” nesta cabeça, a piscar intermitentemente. Quero tantas coisas para mim, quero fazer tanto, tenho tantos objetivos (e quando não os tenho, crio-os) que a tendência, após tempos de mais stress, é cair num pico negativo e emotivo que depois demora algum tempo a sarar (porque não consigo fazer as coisas, porque estou cansada, porque os resultados finais não estão como eu quero ou não aparecem…). Se não escrevi durante uma semana por não ter tido tempo, também não escrevi nos dias seguintes porque não queria vir para aqui destilar as minhas frustrações, que estes dois dias de sol ajudaram a sanar.

    Entretanto já recheei a minha lista de tópicos para escrever e, haja tempo e vontade, o blog não terá falta de temas num futuro próximo. Mas isto, por si só, leva-me a um outro assunto: os recomeços. Neste caso, aqui no blog, não se trata de um: esta foi uma paragem rara num blog que, desde há quase sete anos, tem uma média de posts dia-sim-dia-não. Mas se há coisa que me tira do sério são pessoas que estão em eternos recomeços, que não aceitam um fracasso (ou, se não quisermos chamar-lhe assim, talvez um projeto mal conseguido ou uma ideia que não conseguem levar avante, independentemente das razões para tal). Blogs (e vlogs) que têm posts de quatro em quatro meses – mas que dizem querer publicar de quatro em quatro dias -, que passam a vida no “agora é que é!”, que mudam de look quase como uma forma de auto-incentivo, que fazem dois posts seguidos e que depois deixam os leitores à espera durante meses. É irritante, principalmente quando temos a noção de que já não escrevemos só para nós – que estamos a “produzir conteúdo” (esta expressão agora está em voga, não está?) também para os outros. Faz-me lembrar o meu eterno dilema com os diários – eu achava sempre que ia escrever lá todos os dias, mas na terceira página já adiava a escrita à ad eternum. Até que aceitei que não fui feita para escrever em diários e me deixei disso.

    Essa é só mais uma das razões pela qual gosto de escrever diariamente ou, pelo menos, com uma certa rotina. Não tenho um público suficientemente grande nem exigente ao ponto de vir para aqui saber se eu estou viva, exigir posts ou dizer que está com saudades – mas tal como eu gosto de ir a um restaurante, que sei que está aberto de segunda a sábado, e encontrar as portas abertas, também gosto de ir a um blog e saber que tenho lá algo de novo para ler. É quase um compromisso silencioso, que ninguém assinou ou fechou com um aperto de mãos, e que todos sentimos que está lá. Ninguém gosta de dar com o nariz na porta.

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  • Um post um tanto ao quanto adulto no Delito de Opinião

    Comecei a escrever diariamente em 2009, em blogs que hoje em dia já não andam por aí e cujos textos só moram na cabeça de alguns. Acho que ainda sou uma miúda, mas na altura era MESMO miúda – não tinha sequer feito o 9º ano. Não fazia ideia que a escrita ia ser uma parte essencial da minha vida e do que estava para vir; e muito menos esperava que fosse isso a mudar o rumo da minha formação e vida profissional (uma vez que tinha ideias muito fixas relativamente aquilo que queria fazer no futuro).

    Lembro-me de ir ver os rankings dos blogs mais visitados do país – numa altura em que o “meu” Twilight Portugal estava nos lugares cimeiros, ao lado d’”A Pipoca Mais Doce” e outros blogs de futebol, se a memória não me falha – e de estar lá o nome do Delito de Opinião. Eu era miúda, não lia esse tipo de blogs. O Delito era (e é) um blog adulto. Tem opiniões de quem já teve uns anos para pensar sobre muitos assuntos e sabe apresentar argumentos de acordo com aquilo que acha, já para não falar do traquejo e da experiência de escrita que a maioria dos autores tem no lombo. Fala sobre política, livros, filmes e coisas do dia a dia – mas, pá, de forma adulta. Com algumas palavras difíceis, com uma aura de quem sabe o que diz – mesmo que não concordemos com o que está lá escrito.

    Leio pontualmente alguns posts deste espaço que, para mim, é uma das bandeiras do Sapo – em grande parte por se ter aguentado durante todos estes anos, pela frequência de posts e diversidade – e foi mesmo com enorme espanto que, aqui há dias, recebi um convite para escrever lá um texto. Disse logo que sim, mas depois vi-me grega para saber o que escrever. “O quê que eu vou escrever no Delito? O quê que se escreve para pessoas adultas? O quê que se diz num blog sério?”. Pensei durante uns dias e decidi dissertar sobre um tema que, mais tarde ou mais cedo, iria discutir aqui: a série Casa do Cais. Mete youtubers, dinheiro público, adolescentes e comportamentos fora do padrão/cada vez mais no padrão: um mix perfeito para uma boa troca de ideias e para um post completo. Sério. Adulto, talvez.

     

    “Foi com enorme surpresa que, aqui há uns tempos, vi um anúncio na RTP a uma série que claramente pretendia chamar a atenção de um público mais jovem: chamava-se Casa do Cais e tinha como “actores” vários youtubers portugueses, com um guião inspirado na história real acerca da vinda de um desses youtubers para Lisboa, após ter saído da sua terra natal, o Entroncamento (detalhe que só vim a descobrir mais tarde).”

     

    Hoje convido-vos, por isso, a ler o meu post do costume, mas num estaminé diferente. Hoje escrevi no Delito. Caraças, hoje percebi que cresci. Talvez esteja a ficar adulta como os outros.

     

    Casa do Cais: retrato real ou forçado de uma geração?

    (clicar para ler)

    3 comentários em Um post um tanto ao quanto adulto no Delito de Opinião

  • Fui traída pela minha cadela

    (depois de escrever este título senti-me um daqueles youtubers parvos da moda, atrás de um clickbait – mas o pior é que ele tem um fundo de verdade)

     

    A Molly é uma cabra. Não, isto não é um insulto para a minha cadela. Ela, embora seja um canídeo, tem de ter algures no seu ADN qualquer coisa que a faz agir tal e qual as cabras e os bodes, principalmente no seu chato hábito de trepar e saltar para cima das coisas. Desde pequena que a vi em cima de arbustos e pequenas árvores, mas no último ano a situação agravou-se, pois ela aprendeu a subir aos muros. Tem os seus sítios estratégicos, sabe onde apoiar as patinhas e anda ali qual trapezista. Demorou a aprender – vi-a muitas vezes a dar saltos astronómicos em direção à parede – mas agora faz o que quer da vida.

    A minha preocupação inicial era que ela fugisse de casa, uma vez que chegou a ir para a rua. Acabei por perceber que ela só vai lá para fora quando sente que há algo de excecional a passar-se (se eu for passear outro cão, se sentir que algo não está bem em casa, se formos de férias…), pelo que relaxei nesse sentido. Sempre que a via em cima do muro fazia com que descesse e mandava-lhe um berro, com esperança de a assustar, mas tudo foi em vão.

    Porque agora ela arranjou algo muito melhor do que fugir de casa (e que subir o galinheiro, saltar para o quintal e mergulhar no meio do estrume): vai para a minha vizinha. Só me apercebi deste fenómeno quando ela ficou com o cio e a vizinha nos veio dizer que o cão dela estava a modos que entusiasmado. Fiquei confusa. “Mas como é que a Molly e o cão da vizinha interagem?”. Pois. Os muros não são um problema para aquela cadela.

    Os meses foram passando e agora posso dizer-vos com segurança que a Molly leva uma vida dupla e interesseira. Quando lhe interessa, fica deste lado; quando está entediada, vai para o outro (onde lhe dão mimos e biscoitos). Fina como ela é, pelos vistos, até já bate à porta do sítio onde estão as guloseimas, como que a pedir mais docinhos.

    Mas eu só percebi a gravidade da questão quando comecei a ver fotos dela nas redes sociais dos membros da família do vizinho. Nada contra: eu sei que ela é a cadela mais fofa e querida, não acho que isto seja um caso estilo super nanny, em que se põe em risco a privacidade da “criança”… mas caraças! Sinto-me traída! Anda lá ela, toda feliz da vida, enquanto o outro cão lhe dá mordidelas nas orelhas ou dorme no colo da vizinha… E eu aqui… durante quase quatro anos com mimos diários, a dar-lhe sempre um beijo de boa noite, a tirar-lhe as remelas todas as manhãs, a ensinar-lhe os truques todos durante horas… e ela troca-me. Anda uma pessoa a educar uma cadela para isto!

    (Vendida!)

    (Sim, tenho ciúmes!)

     

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     P.S.: Se os meus vizinhos estiverem a ler isto, quero só dizer que estou a brincar e que agradeço o facto de a tratarem tão bem. Agora que penso… talvez demasiado bem. 😉 

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